O algoritmo do Facebook e os seus botões – ‘bolha’ programada!

Em meados do início do ano de 2018 o Facebook alterou a forma como as publicações apareciam no “feed” de notícias, colocando um algoritmo que faz com que as publicações que recebem mais interações apareçam primeiro nesse “feed”, e, antes disso, dois anos antes, o Facebook já havia inserido os “reactions” (botões de sentimento), até chegar atualmente na união desses dois fatores, o que eu considero como um fator de risco, não apenas pelo uso desse algoritmo como aparelho de disputas ideológicas, como também pelo fator psicológico da falsa impressão de estar em uma rede social de fato e não perceber a real dimensão da ‘bolha’.

Nos botões “reactions” temos o botão “curtir”; o “amei”; o “risada”; o “surpreso”; o “triste” e o “raiva”. Imagine você, que você ou alguém está postando, por exemplo, uma crítica ao sistema de abastecimento de água de uma cidade, se alguém antes de defender o diálogo para apontar os defeitos e soluções (ou seja, usar o espaço “Comentar”) para esse sistema, defender a estima pela reputação daquilo que está sendo criticado (a publicidade em primeiro lugar) provavelmente esse alguém irá escolher ou o botão “raiva” ou botão “risada”, pois saberá que quanto mais comentar nessa publicação, mais essa publicação se tornará relevante, e isso é o que esse alguém não quer, pois, precisando manter a reputação do sistema que é criticado, a única coisa que lhe resta é apertar um desses botões, se existisse uma Antropologia das redes sociais eu diria que isso é uma ‘impossibilidade sistêmica de fazer trabalho de campo’, é como se o campo fosse o espaço dos comentários, e o trabalho nesse campo fosse impedido de ouvir racionalmente o que as pessoas pensam sobre o assunto, e isso em qualquer um dos “perfis” das partes.

Créditos da imagem: Bruno Fonseca/Agência Pública

O algoritmo do Facebook juntamente com esses botões torna a capacidade do diálogo nessa plataforma algo totalmente restrito, um campo fechado onde o cérebro só responde aos estímulos que vai aparecendo, quase que osmoticamente, na tela do computador, sem nenhum julgamento de realidade. Notícias falsas, vídeos pela metade, manipulação de narrativas, o uso dos erros dos outros como fator para encobrir os próprios erros, tudo isso pode propagar-se como algo verdadeiramente real, visto que, para quem estima algo, a velocidade de um clique é muito mais rápido que a velocidade de reflexão do pensamento, da reflexão na realidade, da estima fora dessa caixa virtual. É como se o próprio sistema de algoritmo do Facebook condicionasse a tua emoção como algo mais importante que a tua capacidade de refletir e se abster.

É como diz um trecho de um texto do filósofo estadunidense Hilary Putnam, em que desenvolve um experimento filosófico chamado “Cérebros numa cuba”:

“o computador é tão esperto que se a pessoa tenta levantar a mão, a retroação do computador fará com que ela <veja> e <sinta> a mão sendo levantada”. 

(Hilary Putnam, Razão, Verdade e História, Publicações Dom Quixote, Lisboa, 1992, pp. 28-29)

Isso se parece muito com o funcionamento do Facebook atualmente. Mesmo você sabendo que você é real, você praticamente não enxerga a sua emoção senão através dos botões, você não dialoga no espaço “Comentar” porque sabe como funciona esse algoritmo, e, comentar em um espaço onde foi publicado alguma coisa não real, alguma notícia falsa ou alguma coisa que não concorde seria o mesmo que dar ainda mais publicidade para essa publicação. Com isso, pode restar para você clicar em algum botão que tenha a função “não curti”. Mas o quê que isso agregaria? Que diferença isso faria senão apenas para saber que, no fim, o que o Facebook está fazendo, na verdade, é limitar a capacidade de você exercer o próprio julgamento perante a si mesmo? Nesse algoritmo a publicidade é a base da manutenção irrefletida do seu próprio funcionamento.

A única forma de “escapar” desse algoritmo é pagar impulsionamento de publicação em alguma página que você criou, porém, outros usuários desse sistema, por conta disso, não recebendo os comentários e a consequente relevância almejada nas suas postagens, acabarão por fazer o mesmo, sem nenhum filtro por parte do sistema que evite a propagação em massa de falsas informações.

O Facebook sabe disso, e te usa de cobaia para abastecer um sistema financeiro retroalimentado. A realidade fica em segundo plano, e o marketing vira regra.

Links úteis:

http://problemasfilosoficos.blogspot.com/2015/03/o-caso-dos-cerebros-numa-cuba-por.html

https://apublica.org/2019/07/como-o-facebook-esta-patenteando-as-suas-emocoes/

Autor: Ricardo Comiotto

Pesquisador autônomo e apreciador de música!

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